21/12/2025 às 08h48min - Atualizada em 21/12/2025 às 08h48min

A escolha de José

Pe Clésio Alves Vieira

Pe Clésio Alves Vieira

Pároco da Paróquia Nossa Senhora do Rosário em Quatis

O quarto domingo do Advento marca o ponto culminante da preparação para o Natal e o Evangelho da infância é o de Mateus. Diferentemente de Lucas que coloca em foco Maria, Mateus traz José como personagem importante na consolidação do projeto de vida trazido por Jesus.

À medida que o Natal se aproxima, a liturgia recorda os acontecimentos e personagens que antecedem o nascimento de Jesus. Após destacar João Batista nos domingos anteriores do tempo do Advento, neste quartodomingo são apresentados José e Maria, os mediadores humanos mais próximos do mistério da encarnação. O texto gira em torno da gravidez inesperada de Maria, por obra do Espírito Santo, do embaraço vivido por José e da intervenção providente de Deus.

Mateus, diferentemente de Lucas, coloca em destaque José como destinatário do anúncio divino. O evangelista não pretende apenas narrar fatos históricos, mas afirmar que a vinda de Jesus é iniciativa de Deus e interpela a humanidade.

Jesus não é apresentado como gerado por José, mas como nascido de Maria. Com isso, afirma-se que Jesus, embora inserido na história de Israel, inaugura uma ruptura com estruturas religiosas, familiares e sociais, especialmente a sociedade patriarcal. Sua origem aponta para uma nova humanidade, novas relações e uma nova criação, livres de qualquer domínio humano.

O casamento no tempo de Jesus era realizado em duas etapas. Inicialmente havia a celebração de um contrato entre os “noivos” e seus familiares. Neste primeiro momento, o casal não ia viver juntos o que aconteceria um ano depois, com uma festa que durava cerca de uma semana conforme as condições da família e a consumação efetiva do casamento com o relacionamento sexual. Maria engravida durante a primeira fase, ou seja, da promessa, quando ela e José já eram legalmente casados, embora ainda não vivessem juntos. A gravidez, portanto, colocava Maria em situação de grave risco social e religioso. Isso porque se fosse denunciada a gravidez antes da relação sexual, o marido poderia alegar que ela o traiu e a punição conforme a lei era o apedrejamento. Era morte certa.

Diante desta realidade, José é apresentado como “justo”, porque opta pela misericórdia, decidindo não denunciar Maria e abandoná-la em segredo, e assim assumia o ônus. Em meio à sua crise de discernimento, Deus intervém por meio do anjo, que lhe aparece em sonho, indicando que foi na oração que José acolheu a luz necessária para decidir em favor da vida: de Maria e de Jesus.

O anjo confirma que a concepção é obra do Espírito Santoe convida José a receber Maria como esposa e lhe confia a missão de dar nome à criança. O nome Jesus (“Deus salva”) revela sua missão: não condenar, mas salvar e libertar o povo de seus pecados, inaugurando uma nova relação com Deus baseada no amor e na misericórdia.

É bom considerar também que Mateus recorre ao profeta Isaías para confirmar que os acontecimentos fazem parte do plano de Deus: o nascimento de Jesus realiza a promessa do Emanuel, “Deus conosco”. Mais do que um nome, trata-se de um título que expressa a presença definitiva de Deus no meio da humanidade. Essa presença percorre todo o Evangelho de Mateus, do início ao fim, e deve ser tornada visível pela comunidade através do testemunho.

Ao obedecer à Palavra de Deus e acolher Maria, José antecipa a atitude do verdadeiro discípulo: troca a letra da Lei pelo amor e pela misericórdia. Ele se torna modelo de justiça superior, como Jesus exigirá mais tarde.

Podemos concluir afirmando que Deus deixou a letra da lei para fazer-se humano, especialmente nos pequeninos e marginalizados. Assim, a verdadeira preparação para o Natal passa pela capacidade de acolher e estar ao lado daqueles que sempre foram a escolha de Deus confirmada nas opções de Jesus ao longo do seu ministério.

Um mundo mergulhado em crise é a ilustração desta incapacidade em perceber os sinais de Deus e o seu apelo para aceitarmos que Jesus fique sempre conosco através da prática concreta do amor para superar a violência, a corrupção, a desumanidade e as formas variadas de guerra em que vivemos.

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