Como profissional de saúde, eu sinto que tenho a obrigação de falar sobre esse tema.
Porque quando o assunto é anabolizante, todo mundo olha pro bíceps. Pouca gente olha pra cabeça.
E talvez esteja aí uma das partes mais perigosas dessa história.
A morte de Gabriel Ganley, o “Bbzinho”, trouxe novamente essa discussão. E no meio de tanta análise sobre coração, músculo e performance, existe uma pergunta que quase ninguém faz:
o que acontece psicologicamente com alguém durante um ciclo?
Porque o problema não começa só depois. Muitas vezes começa durante.
O sujeito inicia buscando estética e termina vivendo uma montanha-russa emocional disfarçada de “alta performance”.
Nos primeiros momentos, muita gente relata sensação de energia absurda, autoconfiança elevada e disposição quase infinita. E é justamente aí que mora o perigo: vários sintomas psicológicos acabam sendo socialmente aplaudidos.
A pessoa dorme pouco?
“Está focada.”
Fica agressiva?
“Virou dominante.”
Começa a falar acelerado, se sentir invencível, perder o freio emocional e achar que descobriu o segredo da existência humana entre um scoop de pré-treino e outro?
“Mindset de campeão.”
Existe uma romantização muito estranha do desequilíbrio emocional quando ele vem embalado num corpo definido.
Só que o cérebro não entende curtida no Instagram.
Ele entende química.
Os anabolizantes podem mexer diretamente em neurotransmissores ligados ao humor, impulsividade e agressividade. E durante o uso, algumas pessoas entram em estados parecidos com mania: irritabilidade intensa, euforia exagerada, comportamento de risco, impulsividade e sensação de grandiosidade.
É como se o cérebro fosse colocado permanentemente no modo turbo.
O problema é que motor nenhum aguenta aceleração máxima o tempo inteiro.
Alguns começam a desenvolver paranoia. Outros ficam emocionalmente instáveis. Pequenos conflitos viram explosões. Relações começam a desgastar. E muitas vezes a própria pessoa não percebe a mudança porque, fisicamente, ela está recebendo validação o tempo inteiro.
O shape cresce.
O senso crítico diminui.
E existe uma ironia quase cruel nisso tudo: muita gente começa a usar anabolizante buscando autoestima. Quer se sentir admirada, desejada, respeitada.
Mas durante o processo acaba ficando emocionalmente dependente daquela versão artificial de si mesma.
Porque o cérebro passa a acreditar que felicidade, confiança e potência só existem naquele estado hormonal alterado.
E quando isso acontece, o tratamento deixa de ser apenas físico. Passa a ser psicológico também.
Porque recuperar eixo hormonal às vezes é mais fácil do que recuperar equilíbrio emocional.