27/05/2026 às 16h43min - Atualizada em 27/05/2026 às 16h43min

Mindset de campeão

Dr. Fernando Nader

Dr. Fernando Nader

Fernando Nader é médico, que tem entre suas formações, geriatria e neurologia.

Como profissional de saúde, eu sinto que tenho a obrigação de falar sobre esse tema.

Porque quando o assunto é anabolizante, todo mundo olha pro bíceps. Pouca gente olha pra cabeça.

 

E talvez esteja aí uma das partes mais perigosas dessa história.

 

A morte de Gabriel Ganley, o “Bbzinho”, trouxe novamente essa discussão. E no meio de tanta análise sobre coração, músculo e performance, existe uma pergunta que quase ninguém faz:

 

o que acontece psicologicamente com alguém durante um ciclo?

 

Porque o problema não começa só depois. Muitas vezes começa durante.

 

O sujeito inicia buscando estética e termina vivendo uma montanha-russa emocional disfarçada de “alta performance”.

 

Nos primeiros momentos, muita gente relata sensação de energia absurda, autoconfiança elevada e disposição quase infinita. E é justamente aí que mora o perigo: vários sintomas psicológicos acabam sendo socialmente aplaudidos.

 

A pessoa dorme pouco?

“Está focada.”

 

Fica agressiva?

“Virou dominante.”

 

Começa a falar acelerado, se sentir invencível, perder o freio emocional e achar que descobriu o segredo da existência humana entre um scoop de pré-treino e outro?

 

“Mindset de campeão.”

 

Existe uma romantização muito estranha do desequilíbrio emocional quando ele vem embalado num corpo definido.

 

Só que o cérebro não entende curtida no Instagram.

Ele entende química.

 

Os anabolizantes podem mexer diretamente em neurotransmissores ligados ao humor, impulsividade e agressividade. E durante o uso, algumas pessoas entram em estados parecidos com mania: irritabilidade intensa, euforia exagerada, comportamento de risco, impulsividade e sensação de grandiosidade.

 

É como se o cérebro fosse colocado permanentemente no modo turbo.

 

O problema é que motor nenhum aguenta aceleração máxima o tempo inteiro.

 

Alguns começam a desenvolver paranoia. Outros ficam emocionalmente instáveis. Pequenos conflitos viram explosões. Relações começam a desgastar. E muitas vezes a própria pessoa não percebe a mudança porque, fisicamente, ela está recebendo validação o tempo inteiro.

 

O shape cresce.

O senso crítico diminui.

 

E existe uma ironia quase cruel nisso tudo: muita gente começa a usar anabolizante buscando autoestima. Quer se sentir admirada, desejada, respeitada.

 

Mas durante o processo acaba ficando emocionalmente dependente daquela versão artificial de si mesma.

 

Porque o cérebro passa a acreditar que felicidade, confiança e potência só existem naquele estado hormonal alterado.

 

E quando isso acontece, o tratamento deixa de ser apenas físico. Passa a ser psicológico também.

 

Porque recuperar eixo hormonal às vezes é mais fácil do que recuperar equilíbrio emocional.

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